quinta-feira, 16 de outubro de 2008

O OLHAR DO PROFESSOR


O olhar do professor (Eugênio Cunha)

Ao mesmo tempo em que são sensores do corpo, os olhos são reflexos dele. Ao mesmo tempo em que impactam, são impactados. É interessante a metáfora que há entre os olhos, com relação ao corpo e o professor, com relação à educação. Os olhos percebem a luz e transmitem as informações das imagens ao cérebro que as transformam em conhecimento. O professor não pode sozinho gerar o conhecimento, assim como os olhos, mas é o mediador da sua concepção, podendo levar luz ou manter o educando na obscuridade. “Se teus olhos forem bons, todo teu corpo terá luz”

Os olhos expressam as reações do nosso organismo como a dor, a alegria, a tristeza, o sorriso, a lágrima. Há pessoas que sorriem com os olhos. Dizem com os olhos o que não dizem com as palavras. Os olhos são expressões das nossas emoções. Com eles acolhemos ou rejeitamos, focamos ou ficamos dispersos. Expressamos com o nosso corpo, em gestos, o que nossos olhos confessam, sem exigências de palavras.

Os olhos têm o poder de encorajar-nos, e ganham intrepidez na verdade. De quando em vez, desviam-se para ocultar enganos. Insistem em olhar quando falam de amor; distraem-se, quando falam descompromissadamente. Os olhos do aluno estão sempre mirados no professor e, em alguns momentos, mostram reverência. Quando o professor retribui o seu olhar, o aluno constrói sua segurança. É a disponibilidade do olhar do professor para o aluno que encurtará a distância entre os dois.

Em todos os momentos da sua aula o professor fala ao aluno, mas nem sempre o escuta. Seus gestos são sempre observados e, da mesma forma que ele deixa as suas impressões, o aluno deseja deixar as suas. Se o professor é dinâmico, a turma dinamiza-se. Se é divertido, a turma descontrai-se. Se usar de carranca, as aulas tornam-se carrancudas. As impressões deixadas pelo professor podem virar digitais na identidade do educando, porque seus olhos observam o professor em toda sua maneira de ser. No espaço da sala de aula, o professor será o modelo. A responsabilidade, naturalmente, é bem grande.

Nesse contexto, é apropriado ao professor olhar o aluno com grande acuidade: o aluno não precisa ser sua imagem refletida, um amálgama seu. Cada aluno é um ser único que precisa conquistar sua identidade. O respeito a essas diferenças é que formará a sua autonomia e o resgate da sua segurança para ser o que deve vir a ser. Diferenças na educação são superadas pela maneira como o professor olha seu aluno. Ele é o mediador em sala. Decerto, quem deverá dar o primeiro passo, criando oportunidades para o enriquecimento das relações de aprendizagem.

Olhar com acuidade significa olhar com zelo, com percepção. Olhar os olhos do aluno. Não somente ver as coisas visíveis, mas as que ainda não foram reveladas. Os anseios, ansiedades, dúvidas e sonhos, o que não se revela, muitas vezes, em palavras. O olhar do aluno é potencialmente revelador. Quando descortinado ganham significância na relação com o professor.


Rubem Alves estava certo: “O olhar de um professor tem o poder de fazer a inteligência de uma criança florescer ou murchar”.

Um comentário:

Grupo De Estudos Da EMEF Morro Grande disse...

Acordei com esta bela mensagem... Reconfortante...